Bacurau

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

É a atual sensação da cinematografia nacional principalmente depois que ganhou o prêmio de melhor filme do júri do Festival de Cannes, na França.

Li várias matérias na imprensa (Veja, Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Valor Econômico) sobre o filme e percebi repercussão positiva.

Fui ver a fita para checar esse efeito tanto negativo quanto positivo. Em plena segunda-feira, às 18:20h, me surpreendi com a sala quase completa de espectadores.

As matérias jornalísticas analisam a película como um western. E é, sim, um faroeste contemporâneo em que aparece o drone e o celular em cenário nordestino com suas mazelas onde a interferência da manipulação política é a desgraça presente até os dias de hoje.

Para o sociólogo Demétrio Magnoli (Folha SP) Bacurau “deve ser visto como um testemunho de nossa miséria intelectual — ou, mais precisamente, da extinção de qualquer traço de vida inteligente na esquerda brasileira”.

Para o psicanalista Contardo Calligaris, também da Folha de São Paulo, “Bacurau (para onde eu me mudaria com prazer, se o vilarejo aparecesse no mapa) é uma comunidade diversa, alegre, com respeito e gosto por psicotrópicos e sexualidades inconformistas — em suma, uma comunidade mais animada por um projeto hedonista do que por ressentimentos ou reivindicações”.

A obra de arte está aí para ter concordância ou discordância de acordo com o alinhamento cultural-ideológico do apreciador. Quando terminou a sessão vi muita gente aplaudindo, outros se calaram.

Particularmente gostei porque é um filme de identificação com meu Nordeste. Mais ainda quando vejo a atuação de atores de minha cidade Cajazeiras. Buda Lira, com quem bebo cerveja todo fim de ano em João Pessoa, tem participação em uma cena espetacular, que não vou revelar para não dar spoiler, e Thardelly Lima, que não conheço, mas sim seu pai, tem papel importantíssimo na trama.

É um filme de ação, faroeste que me remeteu aos bangue-bangues que eu e amigos víamos no Cine Éden e Cine Pax, em Cajazeiras, na adolescência, e que, quando saíamos da sala e ganhávamos a rua, a Praça João Pessoa, encarnávamos os heróis do filme dando porradas e tesouras voadoras no ar como se estivéssemos continuando o filme.

Saí da sala no shopping imaginando “dando pernada três por quatro, e nem me despenteio” (quem gosta de MPB sabe de quem é essa frase), nas vitrines, na escada rolante, nas paredes e em quem discordasse que o filme não prestava.

Se Bacurau teve o respaldo do júri do Festival de Cannes, um dos mais importantes do mundo, e já foi visto por mais de quinhentos mil espectadores, é porque merece ser visto, mesmo que seja para discordar.

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