Bacurau e Pacarrete: (o interior do) Nordeste é uma ficção

COLUNA DE LUANA SILVA

LUANA SILVA

Nordestinos do cinema ganharam notoriedade em Cannes e no Festival de Gramado, com os filmes Bacurau e Pacarrete. Os dois longas enaltecem a identidade nordestina, mesmo com temáticas diferentes. Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vencedor do prêmio do júri em Cannes, é uma narrativa catártica, principalmente para quem veio dos sertões. Das semelhanças estéticas com Cangaço e até os Tapuias, índios que recusaram a colonização, Bacurau resgata a ancestralidade sertaneja, enquanto retrata os arquétipos da política.

O cinema e a região Nordeste são alvos do atual governo. Entre piadas sobre “nordestinos da cabeça grande” e uso do termo “paraíbas” de forma pejorativa, o governo Bolsonaro ameaça a Ancine e chegou a cortar 43% do Fundo do Audiovisual. Enquanto isso, nordestinos do cinema ganharam notoriedade em Cannes e no Festival de Gramado, com os filmes Bacurau e Pacarrete.

Os dois longas enaltecem a identidade nordestina, mesmo com temáticas diferentes. Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vencedor do prêmio do júri em Cannes, é uma narrativa catártica, principalmente para quem veio dos sertões. Das semelhanças estéticas com Cangaço e até os Tapuias, índios que recusaram a colonização, Bacurau resgata a ancestralidade sertaneja, enquanto retrata os arquétipos da política.

Pacarrete, de Allan Deberton, foi o grande vencedor do 47º Festival de Gramado. Protagonizado por Marcélia Cartaxo, o longa conta a história real de uma professora e ex-bailarina moradora de Russas, no Ceará. O filme aborda a excentricidade da personagem, mas também a arte independente na pacata cidade.

Assim como na ficção, quando se trata de cultura, o interior do Nordeste é celeiro de auto-organização. A prova disso está na origem de Thardelly Lima, Suzy Lopes, Buda Lira, Soia Lira e Marcélia Cartaxo, atores que estão em Bacurau e Pacarrete: todos eles saíram de Cajazeiras, Sertão da Paraíba. A cidade fica a 468 quilômetros de João Pessoa, atualmente tem pouco mais de 60 mil habitantes e um cenário cultural independente agitado.

Marcélia Cartaxo, Soia e Buda Lira

Na década de 1970, o cearense Belchior escreveu os versos “Nordeste é uma ficção, Nordeste nunca houve” e “não sou do Sertão dos ofendidos, você sabe bem: conheço o meu lugar”. Nessa mesma época, longe dos shoppings centers e arranha-céus, em plena ditadura militar, adolescentes sertanejos se juntavam, pegavam os utensílios de casa e montavam espetáculos teatrais.

Entre esses adolescentes, estavam Marcélia Cartaxo, Soia Lira e Buda Lira. Em 1975, eles integravam o Grupo Mickey e na calçada de casa, na rua Higino Rolim, planejavam as peças. “Fazíamos teatros baseados em fatos reais, como a seca, ciganos, prostituição, etc”, explica Soia Lira, a Maria de Pacarrete. Além dela, entre os 11 irmãos, Buda e Bertrand Lira seguiram carreira na dramaturgia.

O Açude Grande, localizado no Centro de Cajazeiras, foi cenário dos acontecimentos que influenciaram os artistas e tornaram Cajazeiras uma exportadora de talentos. “Convivi muito com o Açude e a região. Os banhos, os passeios em torno do açude, o clube 1º de Maio, o Tênis Clube. Eu destacaria também o Cine Éden, na Higino Rolim e o Colégio Estadual de Cajazeiras”, recorda Buda Lira, Seu Cláudio em Bacurau.

Cajazeiras vivenciava uma efervescência cultural. Havia três cinemas na cidade, o Cine Pax, Apollo 11 e Cine Éden, que deixavam a juventude da época fascinada e disposta a reproduzir as tramas hollywoodianas nas ruas enladeiradas. Outra grande influenciadora cultural da época foi Íracles Pires, a “Dona Ica”. Apaixonada por Teatro, ela era uma mulher considerada a frente do seu tempo e incentivava a produção artística local, tanto que o teatro de Cajazeiras leva seu nome.

Quando Soia saiu do Sertão para os palcos e telas brasileiros, entre eles, o clássico Central do Brasil, chegou a sentir discriminação em alguns espaços. “As pessoas ficavam perguntando se a gente conhecia coca-cola, essas coisas”, relembra Soia. A resposta a esse tipo de pergunta veio com o espetáculo Vau da Sarapalha, um dos mais importantes do teatro brasileiro e que quebrou o eixo Rio-São Paulo.

Suzy Lopes e Thardelly Lima

Luciene de Bacurau transita entre a moça simpática e irônica da venda à cheia de bravura na hora do conflito. Quem deu vida à personagem foi Suzy Lopes,
cajazeirense criada entre Cajazeiras e Baixio, no Ceará. O alaranjado dos pores do sol dessas cidades foram terreno para as influências da atriz, desde pequena, quando ainda nem pensava em seguir a profissão.

“As cantigas que ouvia, os circos que passavam e me deixavam com vontade de ir junto, as serestas, as ciganas nas praças…meu imaginário é repleto dessas imagens”, afirma Suzy. Na infância, já gostava de se apresentar nas festas de família, mas só escolheu a carreira de atriz na fase adulta, quando já morava em João Pessoa, depois de fazer um curso de Teatro.

Na mesma época em que Suzy iniciava sua carreira de atriz, Thardelly Lima não perdia uma oportunidade de atuar em alguma peça de teatro em Cajazeiras. “No colégio Diocesano, onde estudei até o ensino médio, em todas as feiras de ciências, abertura de jogos escolares, nas semanas santas com paixão de Cristo, no São João com casamento matuto, mês de novena, dia da cidade: qualquer oportunidade era um pretexto para preparar uma apresentação, seja com esquetes ou até mesmo espetáculos inteiros”, recorda Thardelly, o prefeito Tony Jr. de Bacurau.

Sertão, cinema e resistência

Cinco atores de uma mesma cidade, no Sertão da Paraíba, alcançando Gramado e Cannes, trabalhando no setor da sociedade mais perseguido pelos que têm medo do livre pensar: é simbólico e serve de aviso. O nordestino não está para brincadeira, encara sereno e imponente quem o ridiculariza. Apesar da narrativa dominante, por meio da auto-organização, a região segue jorrando produção cultural e tem muito o que ensinar ao Brasil, desde que os brasileiros estejam dispostos a entrar no museu de Bacurau.

Se você não entendeu, não perde por esperar“. (Geraldo Vandré)

LUANA SILVA É CAJAZEIRENSE, FORMADA EM JORNALISMO PELA UFPB E TEM O SONHO DE CONTAR AO MUNDO AS COISAS DO SERTÃO.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *