As festas dos cachorros

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

COISAS DE CAJAZEIRAS

As pessoas começam a chegar das vizinhanças. São amigos, parentes, pagadores de promessas. Da cozinha escapam sons borrados de risadas, conversas, prosas femininas entremeadas de cheiros e odores de temperos e especiarias que condimentam carnes, legumes, verduras. Nos terreiros, latadas, sombras de árvores vozes masculinas contam causos, antecipam invernadas e secas, atualizam vivências. De todos os cantos chegam os principais convidados da festa. Vira-latas de todas as raças presos a coleiras ou tangidos por cordas rotas e improvisadas revelam a situação de seus donos. De repente, latidos e gritos acompanham o espocar dos fogos que anunciam e avisam os retardatários e esquecidos que a devoção já se avizinha. O som de uma rústica banda de pífanos contamina o ar com a melodia repetitiva e alegre de seus instrumentos primitivos que atualizam tempos de mamulengos, reisados, renovações, adjuntos.

A devoção começou nas primeiras décadas do século passado quando romeiros, na busca de curas materiais e espirituais, usavam suas veredas como rotas de acesso ao Padim Ciço do Juazeiro. Casados das longas jornadas e fragilizados pelos males físicos muitos iam ficando pelo caminho, abrigados pela generosidade das fartas moitas de juazeiros e dos alpendres das escassas casas de taipa.

Uma dessas romeiras, contaminada por um mal que lhe cobria o corpo de feridas e chagas expostas, termina ficando na Ribeira do Cipó aos cuidados de Mãe Joana, matriarca da família Monteiro e parteira de toda uma geração de Moreira. Movida por um inabalável sentimento de fé Mãe Joana faz a promessa: se curada, a romeira, enquanto viva, faria, anualmente, a devoção a São Lázaro, com novenas, rezas e um farto almoço, preparado com gêneros coletados junto à comunidade. A devoção foi instituída e, depois da morte da romeira alvo da graça da cura, Mãe Joana e filhos, netos e, atualmente, bisnetos, dão sequencia ao ritual que já assume a configuração de tradição, registrada sempre no mês de setembro.

A primeira mesada do almoço em homenagem ao santo é disposta em uma limpa toalha, daquelas que de tão guardadas trazem impregnadas o odor da naftalina. O artefato forra o chão próximo à imagem de um Lázaro ladeado por cães que lambem suas feridas. O improvisado altar abriga o banquete onde cães e pagadores de promessa dividem o alimento. Antes, porém, as rezas e cânticos exaltam e agradecem as curas e graças recebidas pela intervenção do santo.

A tradição já assume tamanha dimensão que, hoje, a comunidade de Monteiros já ostenta uma singela capela em honra e homenagem a São Lázaro. Uma tradição que se sobressai sobre a verdade, pelo menos, na perspectiva oficial da Igreja, que não reconhece a existência oficial de nenhum santo por nome Lázaro. A referência é apenas a passagem bíblica da parábola onde Jesus fala do rico avarento e o mendigo com o corpo coberto de chagas e que pede, pelo menos, as migalhas de alimentos que caiam da mesa e eram consumidas pelos cães que lambiam suas feridas.

Invencionice, ou não, ante os inquestionáveis depoimentos de cura pela intercessão do santo, não serei malucar de dizer que ele não existe. Certeza apenas de que estou indo para mais uma festa, antes que setembro termine.

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