As braçadeiras da saudade

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

A casa de minha infância, com seus minguados seis cômodos e fartos doze membros, trazia a fantástica magia de transformar salas e dispensa em dormitório por onde redes “enterçadas” se entrecruzam abrigando corpos infantis saciados de fadiga da lida e peraltices do dia. Certo vez um dos meus irmãos escuta, no silêncio da noite, o barulho do trincado da madeira que a bruxuleante luz da lamparina permite vislumbrar ser uma das linhas que ameaçava partir-se.

Os recursos disponíveis permitem somente escorar a linha com uma forquilha reforçada que meu pai corta na mata e coloca com a ajuda de vizinhos. Assim, a sala principal de nossa casa passa a ostentar, por certo tempo, mais um mobiliário que, ao gosto de olhos refinados, nada tem de aprazível.

A fartura da safra de algodão seguinte permite o prazer de cimentar a casa de seis cômodos, cujo piso é ainda em tijolo aparente, rejunte ou mesmo terra batida. Ora, mas os lucros que a safra do algodão trazem não são suficientes para a troca da linha trincada e a escora continua como mobiliário na sala.

Mais tarde, em parceria com o amigo ferreiro Espedito Liberato, meu pai improvisa uma chapa de ferro e duas braçadeiras que são colocados na trinca da linha, possibilitando que ela permaneça com sua função de sustentação do teto, sem comprometimento do imóvel. A forquilha sai de cena e o buraco no chão é remendado de cimento, dando uma decoração interessante ao ambiente.

Assim, aquela chapa de ferro e suas braçadeiras permanecem na sala principal de nossa casa por vários anos, como um silente, e invisível, membro, a testemunhar as buliçosas reuniões familiares de natais e carnavais.  Assistem, sem convite, as celebrações das bodas de ouro de meus pais e, mesmo envolva na ferrugem, se entristece com as lágrimas que pranteiam os seus corpos quando a morte os esvazia de vida e transforma em saudades suas vivencias e presenças.

Do canto da sala você resiste às mudanças que a modernidade traz em forma de móveis pré-fabricados, luz elétrica, televisão de led.

Mas, de repente, chego à sala de casa e você não mais está escorando a linha que, por anos, ameaça partir-se. Outra linha, inteira, a substitui. Você foi relegada a um canto, onde a ferrugem cumprirá sua sentença final, a transformando em fuligem. E assim, a casa de minha infância vai se tornando uma estrangeira para mim.

Vai ficando longínquo o desenho da casa de minha infância, com seu chão de rejunte onde disputávamos os pequenos espaços lisos para as brincadeiras de “xibio” e “academia”.

E me consola e me territorializa apenas os versos de Adélia Prado:

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

(Impressionista. PRADO, A. Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 36.).

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