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Anotações de um confinado

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Fui ao hospital retirar o equipamento do mapa 24 horas da pressão arterial. Procedimento rapidíssimo, cinco minutos entre sair do carro e regressar a ele. No sábado, dia 14, cumprira, assim, mais uma etapa na série de exames preventivos, iniciada mês passado, no mesmo hospital. Tudo normal na aparência. Quando entrei na emergência, ignorava, porém, que naquele complexo hospitalar estava um casal que contraíra na Itália o coronavírus.

Mas isto eu só soube depois.

Tive medo, sem entrar em pânico. Logo me lembrei da insistente recomendação da jovem médica que analisara meu tórax, dois dias antes, e lera na minha ficha médica o histórico de três pneumonias nos últimos 20 anos. “O senhor está ótimo, me disse, mas não esqueça do álcool gel, ali no corredor”. Falou e repetiu. Desconfiei.

Cancelei então a cintilografia.

Na manhã do domingo, a gripe deu sinal em meu corpo. Não mais sai de casa. Mudança abrupta na rotina de todos, em particular, dos dois mais vulneráveis: minha sogra (88 anos) e eu. Minha esposa, (30 anos de hospital público), comandou a operação. Cada um no seu espaço físico, determinou. Fui privilegiado: gabinete de trabalho, sala e varanda, o elevador social interditado por ela.

Assim, pude analisar o Estatuto e o Regimento Interno da Academia Cajazeirense de Artes e Letras, fiz articulações com alguns confrades. Resultado, tomou corpo a ideia de utilizar o voto virtual para decisão específica, a ser tomada na Assembleia Geral Extraordinária, convocada para 27 de março, em Cajazeiras. Se tudo correr bem, a ACAL vai deliberar, em votação à distância, sem necessidade da presença física dos Acadêmicos. Efeito do coronavírus.

Se a sala de trabalho é meu refúgio de intelectual confinado, longe fica de ser meu xodó. O xodó é o terraço. A varanda, verde de plantas, me proporciona visão ampla, um alento nestes dias de “prisão”. Ali faço exercício de respiração. Vejo a Praça da Casa Forte, antes frequentada por dezenas de caminhantes, agora exibe um ou outro. Do terraço, posso curtir cantos de velhos conhecidos: bem-te-vis, sebitos, azulões, sabiás, rolinhas, periquitos verdes. Gavião, só vi um.

Enxergo melhor a vida ao redor.

Noto pequenas coisas. Nada parecido com o filme “Janela indiscreta”, de Hitchcock. Insignificâncias que instigam minha sensibilidade. Ao amanhecer, lá estava um homem de meia idade, a exercitar-se, como se faz em academia de ginástica. A vizinha do primeiro andar redobra os cuidados com suas plantas, rega, muda de lugar umas e outras. No prédio em frente, a garotinha de 4 ou 5 anos, passou um tempão a me olhar, eu de máscara e boné. Tirei o boné, deixando à mostra os cabelos brancos. A mãozinha então me acena! Devolvo o gesto. Devo lembrar seu avô, talvez, confinado feito eu. No começo da noite, uma jovem senhora pula, deita-se na esteira, agita pernas e braços, o filhinho ao lado a imitá-la no prazer da companhia da mãe. Há homens sisudos bebendo uísque e jovens adolescentes em algazarra. No bar da esquina, no entanto, não existe mais barulho! Na rua, quase vazia, cresceu o vai-e-vem de motoqueiros a entregar comida pronta. O casal de catador de lixo, encontra, no remexer de nossas sobras, na luta diária pela sobrevivência, a razão de ser de suas vidas.

Tudo isso observo do terraço. Não me queixo. Sou um confinado cheio de privilégios. O infortúnio, penso cheio de temor, está ali bem perto nos morros do Recife, que diviso da varanda!

P S – Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém. Agora, respiro bem. Não fui contaminado pelo coronavírus. Deve ter sido a influenza.

TATYANA
ELIANE BANDEIRA

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