A força tarefa da Lava Jato e os ideólogos da ultradireita da política brasileira firmaram um consórcio como projeto de poder. Em sua gênese a operação não trazia nenhum carimbo ideológico ou político-partidário. Nascia com a proposta louvável de estabelecer um efetivo combate à corrupção, punindo indistintamente todos aqueles que fossem comprovadamente flagrados no cometimento de atos que se caracterizassem como práticas ilícitas na administração pública ou no exercício da política, independente da classe social ou do poder político e econômico a que estivessem vinculados. Daí ter ganho de imediato o apoio popular, quase unânime. O Brasil inteiro depositou nela a esperança de uma reviravolta na cultura política nacional, que continua viciada e criminosa.

Todavia, aos poucos foram percebidos procedimentos que contrariavam essa expectativa. As explícitas relações promíscuas entre procuradores, juiz e agentes da polícia federal, já colocavam em risco a confiança inicial. Estabelecia-se um conluio, que só agora com o vazamento das conversas íntimas entre eles, passamos a ter comprovação do que se suspeitava. Tornou-se um processo seletivo na aplicação da justiça, elegendo conforme as conveniências políticas quais os que seriam alvos de punição e os que receberiam sua proteção. Passaram a ser flagrantes os desrespeitos ao devido processo legal.

Despertou nos seus comandantes a vaidade exacerbada que levou à prática da espetacularização midiática de suas ações. Por consequência, diante da fama, brilharam os olhos diante da perspectiva de ganharem dinheiro com palestras, o que era terminantemente proibido pelos respectivos órgãos controladores de suas atividades. Desprezaram a ordem hierárquica das instituições, desconhecendo princípios disciplinares de obediência a superiores, chegando ao cúmulo de criticarem publicamente decisões de instâncias de segundo e terceiro grau. Se achavam, portanto, acima das leis e da Constituição.

O que em princípio era sério, transformou-se num instrumento de conquista de poder. Como tomaram partido, elegendo os militantes de esquerda como inimigos, tiveram que se aliar à direita para alcançarem seus objetivos. Ao impedirem Lula de ser candidato à presidência da república, estimulando o antipetismo e demonizando seus principais líderes, não tiveram outra opção senão abraçar com todas as forças o bolsonarismo. Se perverteram. Já não conseguiam esconder suas preferências políticas na eleição. Tanto isso é verdade que o juiz Moro foi premiado com a nomeação para seu ministro da justiça, por ter influenciado decisivamente no resultado do pleito.

Em suma, perdemos a grande oportunidade de realizarmos um trabalho sério, responsável e isento de promover uma faxina na nossa cultura política. A cada dia, essa que seria a grande operação de limpeza, se lambuzou na lama da criminalidade com o discurso de que “os fins justificam os meios”. Não se combate o crime cometendo ilícitos iguais. A máscara continua caindo. Mas, no meu entender, a operação ainda pode ser salva. Basta que sejam afastados os que se enveredaram no caminho da ilegalidade em atendimento a interesses escusos dos poderosos de plantão e das exageradas vaidades de alguns dos seus integrantes. Ainda é tempo de resgatar a proposta responsável da Lava Jato.

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