Água do Rio São Francisco levará no mínimo seis meses para encher barragens da Paraíba


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Mesmo quando a transposição for totalmente concluída, as águas do São Francisco levarão no mínimo seis meses para chegar às torneiras dos mais sedentos ou mais ameaçados pela seca que ainda castiga a maior parte da Paraíba. A previsão é do Professor Doutor Francisco Jácome Sarmento, do Centro de Tecnologia da UFPB, ex-secretário estadual de Recursos Hídricos da Paraíba e um dos formuladores da versão original do projeto que estende o Velho Chico ao Nordeste Setentrional.

Em entrevista ao JP online nesta segunda-feira (9), Sarmento adverte que levará pelo menos um semestre para encher as barragens da Paraíba que serão abastecidas pelos canais dos eixos Norte e Leste da transposição. “A água para chegar até aqui precisaria de cerca de seis meses somente para completar o percurso”, disse, explicando que a demora não está condicionada à “velocidade de fluxo nos canais (relativamente alta, cerca de 1,5 metro por segundo, mas ao tempo de enchimento de 27 barragens existentes somente ao longo dos dois eixos, nem todas concluídas”.

Sarmento admite que o Projeto de Integração de São Francisco pode de fato encontrar-se em fase final com 86,3% das obras concluídas, conforme anunciou o Ministério da Integração na sexta-feira (6), mas para chegar à Paraíba e estados vizinhos a transposição ainda depende de equipamentos que sequer foram licitados, além de não possuir o licenciamento devido do Ibama. “Falta a Licença Ambiental de Instalação (LI) e fazer o projeto entrar em serviço (se fosse possível) sem Licença de Operação (LO), pois não acredito que nenhum presidente do Ibama tenha a coragem de emitir uma LO sem o cumprimento das condicionantes da LI, no mínimo é ato improbo”, ressalta.

Os principais problemas da transposição, segundo Sarmento

Sem bombas – “Não duvido do percentual de execução da obra mencionado (cerca de 86% nos dois eixos). Mas é omitido que se trata de um percentual relativo ao que está contratado atualmente e há partes do projeto que sequer estão licitadas, embora fundamentais para que o sistema funcione. Um exemplo disso é o sistema de operação e controle, uma espécie de “de cabine do piloto” sem a qual a aeronave não sai do chão. Fala-se que a água chegará aos estados beneficiados por volta de dezembro (ou antes). Com esse discurso, há que se cuidar para que a água não chegue antes do canal. Brincadeiras à parte, para que a água chegue não basta que os canais estejam prontos. As estações de bombeamento precisam ser concluídas para elevar a água: 180 metros de altura no eixo Norte e 300 metros no eixo Leste. São três estações que fazem isso no Eixo Norte e seis no Eixo Leste. As bombas hidráulicas que fazem esse trabalho são em número de 54. Não são bombas que se encontram disponíveis no mercado. Precisam ser fabricadas no exterior, trazidas para o Brasil, testadas e instaladas com uma gigantesca quantidade de assessórios eletro-hidro-mecânicos, de porte igualmente excepcional. Dessas bombas, na EB-I do eixo Norte, onde cerca de 9 deveriam ter sido instaladas, haviam duas. Uma delas foi danificada e removida quando dos testes que levaram a Presidente a fazer a sua penúltima viagem às obras. No caso das EB´s (Estações de Bombeamento) estamos diante do corriqueiro teatro que quer fazer as obras se confundirem com a estrutura física, o edifício que abriga os equipamentos. Me permita uma analogia: é como se se apresentasse um robô omitindo-se que o mesmo se encontra sem sua sofisticação interior (“alma” eletromecânica) implantada”.

‘Meia transposição’ – “É omitido ainda o fato de que, hoje, por exemplo no Eixo Norte, ainda que tudo estivesse pronto, seria entregue não uma transposição, mas sim meia, pois fisicamente contratados e executados foi apenas metade da capacidade instalada dos aquedutos (esse tipo de obra é também conhecido como ponte-canal, dada sua função de conduzir as águas sobre cursos de água naturais).

Considerando a construção de estradas, onde o fluxo de veículos é análogo ao fluxo de água no canal, seria como se uma estrada fosse construída sob o estranho princípio de ter seu número de faixas reduzido à metade, sempre que seu trajeto cruza com um rio. Ou seja, ainda que estivesse concluído, o Eixo Norte teria capacidade de conduzir 49,5m3 por segundo e não 99,0 como prevê o projeto”.

Na mãoe do ‘inimigo’
– “Não menos importante que a parte física da obra vem a ser o modelo institucional de gestão desse gigantesco empreendimento. No final do governo Lula havia sido decidido, ao meu ver, acertadamente, criar uma instituição autossustentável financeiramente com o objetivo específico de gerir o projeto. Na gestão Dilma, o ministro Fernando Bezerra (PSB) abandonou essa ideia e repassou essa função à Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), empresa que por anos a fio combateu incansavelmente a transposição, tendo-a como uma concorrente na disputa pelas águas sanfranciscanas. Afinal, a Codevasf tem como função promover o desenvolvimento, particularmente da irrigação, no vale do São Francisco e não no chamado semiárido setentrional, formado pela Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Mas o ministro teve suas razões para tomar a atitude que tomou: se preservo há décadas o controle direto ou indireto da Codevasf, também controlarei a transposição”.

Sem licença – “Há sérias questões de ordem ambiental que permanecem como estavam em dezembro de 2010. O saneamento ambiental de todas as cidades que lançam esgotos nos cursos de água receptoras das águas transpostas deveria estar implantado para receber as (caras) águas transpostas. Ao afirmar que a água chega até o final do ano, os veiculadores dessa mensagem parecem desconhecer que cometem sério delito ambiental, a saber, o de desrespeitar a Licença Ambiental de Instalação (LI) e fazer o projeto entrar em serviço (se fosse possível) sem Licença de Operação (LO), pois não acredito que nenhum presidente do IBAMA tenha a coragem de emitir uma LO sem o cumprimento das condicionantes da LI: no mínimo é ato ímprobo”.

Só rezando – “Alerto para a atual crise hídrica nos estados de semiárido setentrional. Ainda que o projeto estivesse integralmente concluído e em condições físicas e gerenciais de operar imediatamente, a água para chegar até aqui precisaria de cerca de 6 meses somente para completar o percurso. Não estou falando da velocidade de fluxo nos canais – relativamente alta, cerca de 1,5 metro por segundo). Falo do tempo de enchimento de 27 barragens existentes somente ao longo dos dois eixos (nem todas concluídas, como afirma a própria matéria). Funciona da seguinte forma: ao cruzar com um rio, o canal pode alcançar o outro lado do vale com uma ponte-canal ou com a construção de uma barragem. A opção é do projetista, que avalia qual a solução mais barata. Uma barragem faz com que a água do rio se eleve até a cota do nível de água do canal que precisa atravessar o vale. Assim, nivelado os espelhos de água, o canal deságua na barragem e segue seu caminho do outro lado do lago desta, cruzando assim o vale. Portanto, são milhões de m3 que precisam ser bombeados até que todas as barragens de travessia do canal sejam preenchidas e as águas transpostas completem seu percurso. Uma vez chegando à Paraíba, por exemplo pelo Eixo Leste, essas águas precisariam encher as barragens de Poções, Camalaú, Epitácio Pessoa e Acauã para efetivamente trazerem o benefício de atendimento aos sistemas de adutoras que fazem a água chegar ao consumidor urbano. Isso também é medido na escala de meses. Conclusão: para a atual crise hídrica, resta tão somente rezar, inclusive para São Francisco”.

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