Adeus a Dorany Sampaio


POSSE DE DORANY SAMPAIO NA SUDENE EM 1986

Grandes amigos estão indo embora. Interrompo outra vez os escritos acerca da rivalidade Sousa versus Cajazeiras para o adeus a Dorany Sampaio, que faleceu no Recife no dia 13 de março. Aos 91 anos morreu lúcido, tal como viveu. Lúcido e dedicado à família e aos amigos. Lutou com denodo na defesa da democracia e da liberdade como advogado, no exercício de mandato eletivo ou de cargos públicos. Apaixonado pelo que fazia, Dorany era incansável.

Dorany de Sá Barreto Sampaio nasceu em 1927 no Recife, mas sua raiz está bem pertinho de Cajazeiras, no cariri cearense. Filho do médico Antônio de Sá Barreto Sampaio Júnior, de Barbalha, parente de Leão Sampaio, ícone da medicina no interior. E também do monsenhor Murilo de Sá Barreto, vigário em Juazeiro do Norte durante 37 anos, ardoroso defensor da memória do padre Cícero. Casado com a sertaneja de São José do Egito, Lisete Valadares, Dorany sentia-se à vontade entre os do sertão, como se estivesse no meio de seus sete filhos: seis mulheres e um homem.

Bacharel em direito pela faculdade do Recife, abraçou a advocacia e, na atmosfera cinzenta da ditatura, que logo em 1964 cassou o mandato do seu irmão, Almany Sampaio, Dorany foi eleito deputado estadual dois anos depois. O AI 5, porém, interrompeu sua corajosa e brilhante atuação parlamentar, assim como a de oito companheiros seus do velho MDB. Não o MDB de hoje, presidido por Romero Jucá, mas o MDB da resistência democrática. Veja só, ele foi alijado do parlamento em nome do combate à subversão! Era assim naquele tempo.

Cassado, retornou à advocacia.

Mas cadê os clientes? Cedo percebi a inviabilidade desse projeto, pois era manifesto o terror espalhado pela ditadura, levando os clientes a sequer pensar em ter um cassado como defensor nos pretórios, recordou ele, anos depois, ao agradecer homenagem que lhe prestou a assembleia legislativa de Pernambuco. Conhecidos mudavam de calçada para evitar um simples bom dia, Dorany. Com sete filhos menores para cuidar, o que fazer? Abriu um restaurante popular, no centro do Recife. Deu certo. A resposta da sociedade confirmou o espírito generoso e solidário do pernambucano. A casa vivia cheia e a registradora não parava.

Cuidou da família sem deixar de lado o bom combate, sobretudo, em duas trincheiras. Na Comissão Justiça e Paz, da Arquidiocese de Olinda e Recife, sob a orientação destemida de dom Helder Câmara, numa época em que dom Hélder era proibido de ter sua fala divulgada na mídia, então sob rigorosa censura. Outra frente foi a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), inclusive como vice-presidente e presidente da seção pernambucana. Passada a procela, militante do PMDB, Dorany Sampaio se engaja na frustrante Nova República, de Sarney, como diretor do Banco do Nordeste, em Fortaleza.

Ali o conheci de perto, pois trabalhava no gabinete de seu presidente, Mauro Benevides. Fizemos amizade, descobrimos afinidades. Quando Dorany Sampaio foi designado superintendente da SUDENE, em 1986, não tive outro jeito senão aceitar o convite para acompanhá-lo no retorno ao Recife. Em abril daquele ano, assumi a chefia de gabinete, saindo com ele, em agosto de 1987, depois de trapalhadas políticas do presidente José Sarney.

Na política, Dorany só teve apenas uma filiação partidária: MDB/PMDB. Presidiu o partido em Pernambuco durante mais de 20 anos. Exerceu os cargos de secretário na prefeitura do Recife e no governo de Pernambuco, quando chefiados por Jarbas Vasconcelos, como ele fundador do MDB. Está agora ao lado de Deus.

 

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