A TPM de Purezinha


GERALDO BERNARDO

Purezinha é astuta. Sabe reconhecer uma serpente por mais emplumada que ela esteja. Vive me dando conselhos.

Uma de minhas fiéis passou a procurar-me, de maneira tão insistente que, sinceramente não me pareceu assédio, mas, Purezinha, mais aguçada que faro de cachorro magro, falou:

– Vê se pega logo o dinheiro desta vadia e expulsa de vez esta cobra da igreja.

– Como assim? – indaguei.

– Não se faça de besta. Você sabe tanto quanto eu que essa daí é uma aventureira marca maior. Onde já se viu! Menino mais inocente é você. Como se eu fosse besta. Não ficasse vendo, essa, essa… puta mesmo. Agora, chega aqui! Esta lambisgóia, desenxabida que só ela. Pensa que não vejo!? Fica balançando aqueles peitos sardentos na tua cara! Não sou cega não, meu filho. Ora! Espio cada cruzada de perna e fungada no teu pescoço.

– Mulher! Faz parte de minha profissão. Acompanhar, dar apoio, encaminhar, tudo isto e muito mais. Faz parte de nosso disfarce, tu não sabes?

– Sei! Como sei! Sei também que isto não é desculpa pra você oferecer seu ombro e seu lenço. O que foi que houve? Ela botou chifre no marido, de novo, foi? Porque, a cara dela não nega. Agora mesmo! Uma loura falsificada como ela, parece que não se enxerga, fica vestindo calça de adolescente, pra quê? Pra arrebitar aquela bunda de prostituta. Quero mesmo é ver aquilo daqui… vou botar cinco anos… daqui há cinco anos, aquilo é só banha.

– Deixe de implicância – fui dizendo e tentando abraçá-la.

Num safanão Purezinha afastou-se, girou, apanhou a faca de pão em cima da mesa, empunhou-a contra meu peito e foi dizendo-me com mira de labareda nos olhos:

– Atreva-se! Seja ao menos besta, de imaginar em tirar uma casquinha que seja, que eu vou na sua goela, mas, antes eu corto seus possuídos.

– Deixe de leseira. Parece que não me conhece. – disse.

– Conheço sim. Exatamente por isso. Como eu conheço também aquele tipo. Aquilo é cobra, sei de tanta história daquela biscate. Pensa que é muita coisa, vive rebolando aquele rabo por tudo quanto é repartição, procurando quem queira, buscando tirar proveito dos trouxas, coitada! Não sabe ela que o conceito que arranjou é tão feio que dá medo até de pronunciar.

– É mesmo? Eu não sei de nada disso. – Falei com sinceridade. Realmente era desconhecida para mim toda aquela informação.

– Olhe bem pra minha cara, tu tens coragem de ser tão descarado, pensa que sou besta? Tu nunca olhaste praquele decote pornográfico? E aquela microssaia – parece que só tem uma – de quenga do Bar do Firmo? Vai besta! Anime-se pra tu vê! Aquilo ali só quer teu dinheiro, depois, ponta! Do jeito que fez com o primeiro marido, deixou o abestalhado cheio de galha e ainda ficou com a conta bancária recheada. Também! Tomou no fundo duas vezes. É! Pensa que só ela que é esperta, que é golpista. Caiu de amores pelo bofe que a sacaneou. Eu sei, conheço cada detalhe! Tem quem me diga as coisas, basta. Ora! Se tem! Financiou um carro caro, desses importados, no nome dela, uma prestação altíssima e, depois, deu nos calos. Deixou a prestação e outras contas no espinhaço dela. Bem feito! Pra largar de ser quenga e burra.

– Dona Milka? Com aquela delicadeza, aquele pudor. Isso é fuxico.

– Huuumm! Desentendido o senhor.

– Juro que não sei nada desta história.

– Sabe não?! Santinho! Seu Zé Crente sabe de tudo, a mulher dele sabe muito mais. Se ele não lhe disse, o que eu duvido, ela me contou. Disse que a vida daquela dali é inventar história, intrigas, passa por um tipo pessoa, mas é outra. Toda falante. Mentirosa chegou até ali. E só quer se envolver com gente da alta. De secretário pra lá, verdadeira cortesã da contemporaneidade.

– Realmente Dona Milka revelou-me que está passando por problemas amorosos e familiares, também no trabalho. Pra dizer a verdade não reparei direito no que ela disse que trabalhava.

– Assessoria. É o que ela diz que faz. É o apelido! Vez por outra aparece em cada carrão – políticos, advogados – aparece com muita gente. Isso é disfarce, deve vir das quebradas, sei lá! Aquilo não é mulher de se levar pro motel. Com aquela cara de vagabunda, os cabras comem é no meio do mato mesmo, no motel calango. Tem gente que ainda se engana. Essa história de assessoria é só um agá, acredita que quiser.

– Cuidado, falar dos outros sem provas dá cadeia – falei rindo pra não assanhar a fera.

– Ahá! Advogado das putas. Diga doutor, o senhor vai me prender? Fique o senhor sabendo, seu defensor de meretriz, que a voz do povo é a voz de Deus. Além do mais, aquilo tem toda ferramenta de messalina. Aquela “trepeça” foi apanhada com Dr. Romeu em cima dela. Foi naquela vaquejada que teve lá no Parque de Exposição. Vai dizer que nunca soube disso. Faz o quê? Uns três meses. Lá perto do lixão, quem viu foi Mazé de Chico Doido. Disse que tava lá, ela toda arreganhada e o velho se esforçando pra ver se dava certo. Eu queria mesmo era ver aquilo sem cinta. Vai dizer que não usa? Porque ela não tem menos de trinta e cinco, toda metida a durinha daquele jeito, já tem um filho com dezesseis, que milagre é esse? Não mesmo! Nem com academia. Tá com a “bixiga lixa”? Deve viver toda amarrada, quando solta as ligas é que as banhas aparecem.

Purezinha ia ficando mais calma, a medida que ia falando e falando, e eu só ouvindo. Tentando me lembrar de quando conheci Dona Milka, num culto que fiz na Câmara. Mulher elegante, não era bonita, mas, o corpo era escultural. Fartas coxas, bela cintura, sorriso sempre aberto. Visitava a igreja esparsamente. Ultimamente tem se interessado em ajudar a conduzir o rebanho. Fez-me propostas de negócios, mas, nunca encontrei sintonia para realizar ações com ela. O que me enche o olhar cada vez mais é o seu colo cheio de sardas.

Depois de um gole silencioso de café, Purezinha, como despertando das lembranças, empunha sua campanha contra Dona Milka.

– Tem mais. Antes de casar, com o primeiro besta, ficou buchuda do filho de Braz, lá no Alto todos sabem disto. Abortou, sei lá! Só sei que não pariu. Tanto ela quanto as irmãs sempre foram da bandalheira. Nunca começa uma coisa pra terminar. Já investiu em loja, boutique, agência de turismo, agora diz que tem uma sociedade (deve ser com outro maloqueiro) num escritório de assessoria. Eu sei que tipo de assessoria ela presta. Na verdade eu tô querendo dizer uma coisa,sei que é machista, mas ela merece, é uma grosseria, eu sei, mas, não me agüento se não dizer. Não fui eu quem inventou, é o que dizem sobre ela, é feio, mas… eu vou dizer, dizer logo na bucha: depósito de esperma. Pronto, disse! É isso que dizem dela, desse tipo. Já disse ta dito, pronto.

Levantou, pegou a bolsa, saiu aliviada. Purezinha é assim, quando quer dizer, ela diz.

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