A Tereza, odes!

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

A encontrava sempre perambulando pelas ruas centrais da cidade.

De alguns, poucos, recebia um olhar amistoso. De muitos, um rosto virado, contorcido com a manifestação do desprezo.

Em que momento ela iniciou essa existência de devaneios e andar a esmo, não sei. Mas, desde os anos de 1980 que a via falando e gesticulando para uma assistência imaginária. Corpo magro, porte elegante, saias sobrepostas, cabelos rubros fortemente tingidos com tinta barata e, frequentemente, preso com toucas improvisadas de rendinhas toscas. Um batom vermelho e mau distribuído por lábios finos lhe dava a compostura de senhorinhas surgidas de alguma perdida passagem colonial. Na mão, um tosco pedaço de madeira que, em sua visão, lhe dava o porte de um cetro que compunha o palco de sua nobreza. Um artefato que lhe agrega o nome: Tereza do Pau.

A conheci mais intimamente em um momento de trauma e violência. Em muitas noites, tinha o adro da igreja catedral como refúgio e abrigo para o descanso. Ali foi vítima da brutalidade de um jovem que tenta estuprá-la, lhe impingindo marcas de dor e medo. Como integrantes de um grupo feminista, o Sertão Mulher, a encontramos em uma casa singela e despida de bens na periferia da cidade. Uma casa acanhada que dividia com outras duas irmãs, parceiras do infortúnio.. Neste momento, sua elegância desaparece e o frágil corpo se curva e treme de pânico ante a violência que traduz como “natural” a ignóbil exploração do corpo e das vontades femininas. Encolhida, como a buscar uma imaginária proteção, apenas lágrimas doloridas manifestam seus sentimentos.

Restabelecida, volta a sua cena preferida: as ruas centrais da cidade. Cenário onde, reiteradas vezes, volto a encontrá-la. Momentos em que sempre sou acolhida com um afetuoso gesto de carinho, um abraço e um caloroso beijo no rosto que me marca com a suave cor rubra de seu batom barato. Um carinho que sempre vinha acompanhado de frases gentis que, sinceramente, marcam o sentido de humanidade que nos une e nos transmite o sentimento de pertencimento. Nestes momentos, ela sempre me convidava para lhe acompanha até um supermercado, para atender seu desejo de ser presenteada com um sabonete, mas ela escolheria, pois não queria um produto barato e de qualidade duvidosa. E eu me sentia no esplendor de minha condição de gente.

Não sei em que momento ela sai de cena. Apenas sinto uma estranha ausência nas ruas centrais da cidade, que se tornam mais taciturnas sem sua elegância, sua prosa para ninguém, a trouxa de coisa nenhuma que sempre portava na cabeça.

Abrigada em uma casa de acolhimento para idosos, ali viveu seus derradeiros anos de vida protegida pelo carinho daqueles que perfilam seus rostos e suas dignidades para o humano que nos identifica.

E quando o singelo caixão com seu corpo inerte passou pela minha porta, acompanhado de minguadas pessoas, como a reproduzir o cenário dos versos de Bandeira, um estranho aroma de sabonete impregna minha alma e lanço no ar um imaginário beijo de adeus que baila pelo ar no encontro de teus abraços.

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