Ao saírem do Clube do Estudante Universitário, na Lagoa, no início da tarde do dia oito de agosto, onde estiveram reunidos em assembleia durante toda a manhã, os manifestantes seguiram para a Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba, ao lado do Liceu. Lá se estabeleceram como o seu QG do movimento, ocupando o “hall” do prédio da FAFI para realizarem novos debates, a fim de traçarem as estratégias de atividades. Faziam questão de esclarecer para a opinião pública o caráter pacífico da manifestação, concentrando naquela escola superior todas as ações de protesto contra a prisão do líder estudantil Vladimir Palmeira e a política educacional brasileira.

Articulados com as lideranças nacionais, localizadas principalmente no Rio de Janeiro, onde continuava preso, incomunicável, o líder carioca, os estudantes paraibanos se organizaram de forma a tornar permanente a presença deles na FAFI, enquanto persistissem os motivos dos protestos. Formaram vários grupos de pedágio com a finalidade de pararem os veículos nas proximidades do prédio onde estavam instalados, com o objetivo de arrecadarem recursos que permitissem suprir as despesas com alimentação e estadia dos estudantes durante a ocupação da FAFI.

À tarde, enquanto lideranças discutiam a organização do movimento, foram surpreendidos com o corte dos fios de telefone daquele estabelecimento, provocando indignação geral. Alertados do problema, exigiram dos dirigentes da faculdade o restabelecimento imediato das comunicações, no que foram atendidos em tempo rápido.

Outro incidente que merece registro nas primeiras horas de instalação do comando, na FAFI, foi a identificação pelos estudantes de um homem trajando roupa preta, magro, alto, de aproximadamente vinte e dois anos, do qual desconfiaram tratar-se de um agente do DOPS. Submetido a interrogatório, o suposto policial, só foi liberado horas depois quando tiveram a certeza de que a sua presença no local não representava perigo de infiltração policial na manifestação.

Artistas, professores e intelectuais compareciam ao QG estudantil para prestarem solidariedade. Era intensa a frequência de personalidades paraibanas da política e da cultura, durante todo o período em que os universitários e secundaristas permaneciam na faculdade. A polícia militar, por decisão expressa do governador, manteve-se todo o tempo, a distância, apenas orientada a não permitir a realização de passeatas, o que estava proibido pelo governo federal.

O Delegado da Polícia Federal na Paraíba, Sr. Severino Romano, declarou à imprensa, num tom de advertência aos manifestantes, que temos todos os elementos considerados líderes sob nossa pauta e se ainda não os mantemos isolados em suas próprias residências é porque esperamos que esses jovens tenham adquirido a conscientização do que lhes pode ocorrer. Apreendemos alguns panfletos que foram distribuídos pela cidade e constatamos que essa distribuição não partiu da iniciativa dos estudantes e sim de elementos subversivos que tentam a todo custo levar adiante suas frustrações.

Na noite do dia treze de agosto, o comitê dirigente do movimento estudantil deliberou pela desocupação pacífica do prédio da faculdade. Antes, porém, foi proferida uma palestra pelo professor Ronald Queiroz sob o tema: “Violência. Sim ou não”, quando se definia inteiramente favorável às lutas da juventude brasileira, alertando, contudo, para que a violência só deveria acontecer em casos de extrema necessidade ou de flagrante provocação dos repressores.

Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”

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