A morte é feminina, a violência também…

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

O crescimento dos casos de feminicídio no país não deve ser explicado como consequência natural do desenvolvimento.

As mortes de mulheres tendo como motivação a sua condição de mulher revela o desenvolvimento de uma mentalidade que, institucionalizada como opção de governo, passa a produzir discursos de ódio como explicações inerentes ao desenvolvimento de uma sociedade. Sociedade onde pobre, preto, favelado, nordestino e, sobretudo, mulher, é percebido e classificado como inferior e, portanto, despido de qualquer merecimento da condição de humanidade.

Sobre as mulheres essa desqualificação ganha ingredientes de variadas matizes, sobretudo, religiosas. Somos origem e fonte de todas as mazelas do mundo. Nossos corpos são, antecipadamente, promovidos ou a relicário de virtudes e, portanto, objeto de veneração. Ou a gênese da perdição que, tendo a “sensualidade”, a “luxuria”, a “devassa” como atributos centrais, consegue turvar qualquer discernimento racional e sensato e arremessar corpos e mentes masculinas no caminho da perdição.

Manter-se casta e virtuosa exige das mulheres a anulação das mínimas condições de vivência da autonomia que se apresenta, nos tempos atuais, como requisito básico ao exercício da dignidade. Ter uma vida que traz como adjetivos a “devassidão”, a “sensualidade”, somente pelo exercício da autonomia do ir e vir, do controle sobre corpos e vontades, da prática do falar e pensar, representa uma heresia, uma agressão às normas que nomeiam e imprimem a marca da inferioridade, da submissão, do silenciar, da subserviência, da servidão ao feminino como se inerente fosse a uma pretensa “natureza e condição femininas”.

Naturalizar o que é cultural resume uma prática fascista que, nos tempos atuais, traduz, em sua plenitude, uma visão de governo e de Estado. Uma visão que, ao arrepio de leis e estatutos criados como mecanismos para combater e prevenir comportamentos violentos, ganha legitimidade quando passa pelo crivo da autoridade governamental. Quando um presidente tem como discurso central de governo o ódio, uma política de armamento, cortes drásticos em investimentos de educação, de pesquisa, de produção de conhecimento, a violência contra a mulher se apresenta e é defendida como natural, sobretudo, contra aquelas que, por essa visão, se classificam como “vadias”, “fogosas”, “pecadoras”.

E assim, a morte de mulheres cresce na mesma proporção que aumentam as estatísticas de mortes violentas e anônimas de favelados, sobretudo, jovens e negros, de moradores de rua, de travestis e populações lgbt. Mortes que, muitas vezes, trazem a explicita autoria dos aparelhos policiais ou de grupos paramilitares que se instituem e funcionam sob a proteção e financiamento de grupos políticos e econômicos legitimamente autorizados.

E, mais uma vez, o poeta Chico Buarque nos faz pensar através de seus versos:

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas

Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas

Quando amadas, se perfumam

Se banham com leite, se arrumam

Suas melenas

Quando fustigadas não choram

Se ajoelham, pedem, imploram

Mais duras penas

Cadenas.

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