A janela que se fecha

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

Desde criança, que havia uma família amiga de meus pais, que eles moravam na esquina do “Beco dos Sete Pecados”, aquela ruela que sai da Matriz e termina na Pça. João pessoa, e que muuuito antigamente, segundo contavam os antigos, haviam ambientes onde se praticava a mais antiga profissão do mundo, mas isso não vem ao caso.

Eram Julio Cesar, o mais velho, Manoel George, e o mais novo, Luiz Hermano, tinham umas meninas, Mirtes e Germana, esses bem pequenas. O mais velho desses filhos, estudou comigo, e seu pai Donato Rocha era de nosso convívio, Lembro um episódio: ainda muito jovem, tomando um banho de chuva, me tremendo de frio (é leitor, cajazeiras já fez frio) e na esquina da bodega de Seu Zuca, Donato Rocha, de dentro da venda, me deu uma cachaça para passar a tremedeira, foi talvez a primeira vez que bebi a “água que passarinho não bebe”, passou, e como. Ainda tinham três irmãs (as filhas de Julho marques), que eram muito amigas de minha mãe, Tinham outras, mas Natércia, Marluce e Nevinha, que era essa última a mais chegada de minha mãe, tanto que quando morávamos em Recife, apesar de termos um apartamento nosso, ele “ficava hospedada” no apartamento de Nevinha, que era casada Dilson, funcionário do banco do Brasil.

Aqui, estudei como já disse, com Julinho, e em quando morava em Pernambuco, com Manoel George (o irmão do meio), tomamos uns porres monumentais na Veneza Brasileira, em que éramos acompanhados por Leocarlos Moreira, o aqui conhecido Carlinhos da farmácia de Haroldo, e segundo tive notícias, se formou, mora no Mato Grosso, e vive muito bem.

Agora, quando de minha volta a Cajazeiras, meu contato maior foi com Hermano, que vivia na casa de sua mãe, e de dentro de seu quarto, na última janela da casa onde moraram seus pais, entabulávamos longas conversas, sobre os mais variados temas, Processos, conspirações (ele como filho mais novo, tanto quanto eu neto mais novo de grandes famílias, vivíamos achando – às vezes com razão, que se conspirava para subtrair nossos direitos hereditários), e as outras coisas corriqueiras mais importantes de qualquer cidade do interior; vida alheia: Quem morreu, quem traiu, quem quebrou, quem virou “homoafetivo” (rsrs), enfim as fofocas em geral, Hermano sobre isso era um expert: todo dia às 4.00 hs da manhã, ele pegava a Bizinha dele (não sei como ele cabia naquele veículo minúsculo) e dava um city tour, parando em pontos chaves para saber o que aconteceu, e como… muitas vezes, fiquei sabendo de notícias em primeira mão por Hermano, especialmente quando seu irmão e meu ex- colega Julinho morreu, ele bateu na minha porta às cinco da manhã para me comunicar.

De vez em quando, eu passava por seu beco, e a gente tomava umas cervejas e comíamos bacalhau, enquanto resolvíamos todos os problemas de nossa comunidade, e por extensão, os do mundo.

Foi casado duas vezes, a primeira, tenho poucas recordações, mas tive alguns contatos com sua filha Mana, pessoa agradabilíssima, que infelizmente quase assim que nos conhecemos mudou-se de Cajazeiras.

Sua segunda esposa, Jaqueline, cearense, eu tenho mais contato, esforçada  professora e ainda mantinha um reforço escolar na casa onde morava, e tinha paciência para viver com Hermano e toda a complexidade de sua personalidade.

Eu e Hermano nos dávamos bem porque era ele lá e eu cá, tinha uma coisa: ele era extremamente opinioso, quando tinha uma opinião, nada o demovia dela, se você fosse contra, quase como virava desafeto.

Infelizmente essa opinião irredutível, não tenho certeza, mas pode ter contribuído para o seu desaparecimento quase precoce: Hermano ficou como que, criando uma cepa de bactéria, que ficou resistente a antibiótico, e de uma infecção foi a septicemia. Na minha opinião, os nossos hospitais-matadouros, tanto de Cajazeiras quanto de Sousa, tiveram algum papel nesse óbito.

De toda forma, uma família perde um pai, e eu um interlocutor; e a janela onde trocávamos nossas opiniões, pelo menos para mim, se fecha para nunca mais abrir.

P.S. – Dedico essas ao meu primeiro futuro ex-leitor: o inteligente vereador Jucinério Félix, que por discordar de minha intenção de voto no segundo turno para presidente, me rebaixou à irracionalidade. Sinto, mas acho que o tempo do PT passou, acho que Lula está preso, e acho que Haddad fez um dos piores governos na Prefeitura de São Paulo. Respeito e vou ler quem pensa contra. Ademais, na urna, assim como na alcova, a gente pratica um ato secreto sem ter que dar satisfação a ninguém. Eu mesmo me acho diminuído.

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