A esquerdofobia

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

O contexto político brasileiro está formando um novo tipo de comportamento, o da esquerdofobia. O medo das idéias de esquerda e a propagação de que nelas reside a ameaça de que possamos ser surpreendidos com um regime comunista. Não existe argumento mais risível do que esse, em que se procura convencer os incautos de que deveremos abraçar a ideologia neoliberal, incutindo o medo quanto a participação do estado na economia.

Alguns argumentam, até em defesa da volta dos militares ao poder, que o golpe de 1964 se deu para nos salvar das garras do comunismo. Quando na verdade existiam outros motivos maiores do que o simples receio do perigo vermelho. O Brasil vivia naquele tempo uma grave crise econômica, uma inflação descontrolada e muitas denúncias de corrupção contra o governo. Mais ou menos o que se verifica hoje. A direita se aproveitou do fato da presença de um socialista no poder para justificar o golpe. E deu no que deu.

A história se repete. A chegada das forças populares ao poder, assustou a direita. Passaram a trabalhar a divulgação, com apoio da mídia e do empresariado, de que havia uma conexão entre os partidos de esquerda e o comunismo. Fizeram despertar a esquerdofobia. Ora, sabe-se que toda fobia é irracional. Não se pode desconhecer que a esquerda que chegou ao poder cometeu alguns erros imperdoáveis, se nivelando aos demais que há muito tempo vêm exercendo a política da corrupção em nosso país. Mas daí a se jogar a culpa exclusivamente na esquerda é algo que se apresenta como muito injusto. Mas é o aproveitamento das circunstâncias.

Voltar a imaginar que o país pode ser tomado pelos comunistas foge à maturidade política e intelectual. O comunismo não se sustenta mais enquanto ideologia. O que permanece é um sentimento contrário à exploração dos pobres pelos poderosos. O que ainda se mantém como ideal é o estabelecimento de uma política direcionada para o social. O que continua sendo considerada importante para benefício de todos, indistintamente, é a inclusão social, o combate à miséria, a defesa da democracia, onde os direitos e deveres sejam iguais para todos.

A esquerda cometeu muitos erros, estratégias equivocadas, adoção de métodos antiquados de governar, imposição autoritária de seus conceitos. Mas não justifica que se consolide o ódio intransigente à sua ideologia. A intolerância sócio-política que estamos vivendo, produz uma cegueira que impede a crítica real e objetiva da conjuntura. Estão levando o país a uma conflagração social, um duelo inconseqüente entre os pensadores da política nacional, que se situam, cada vez mais, em posições antagônicas extremadas.

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