A eleição que deu início à redemocratização

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

POR RUI LEITÃO

TATYANA
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[dropcap style=’box’]E[/dropcap]m outubro de 1978 assistíamos mais uma eleição indireta para Presidente da República. No entanto, havia um clima de esperança no futuro próximo, porque era evidente que a ditadura estava acabando. O regime militar se via acossado pela oposição que se organizava com apoio popular e pela grave crise econômica que o país enfrentava.

Entre as forças militares já havia uma forte dissidência e o governo percebia que tinha perdido a unanimidade que lhe dava sustentação. O general Hugo Abreu liderava a movimentação política dos oficiais que divergiam da cúpula que governava a nação. Surgia então o nome do general Euler Bentes como opção de candidatura oposicionista pelo MDB.

Ulysses Guimarães e Tancredo Neves compreenderam que o lançamento de uma chapa comandada por um militar facilitaria a transição democrática e dividiria os militares. Criaram a Frente Nacional da Redemocratização, confirmaram a candidatura do general Euler Bentes, tendo como companheiro na disputa o senador Paulo Brossard, e foram às ruas como se a eleição fosse pelo voto direto. Mas era uma forma de pressão sobre os membros do colégio eleitoral.

Por um lado o general da oposição apresentava a proposta de que “teríamos um governo de três anos, que iria operar, a partir de março de 1979, a transição do estado de arbítrio para o estado de direito, pleno e, sobretudo, legítimo (o que hoje querem acabar), e tão logo assumisse o poder, revogaria todas as exceções e restauraria todas as liberdades, promovendo a mais ampla e livre discussão dos grandes problemas nacionais”. De outra parte, os acenos pela volta á democracia já eram sentidos desde a declaração de Ernesto Geisel em executar a transição lenta, gradual e segura, promessa reafirmada por seu candidato, o general João batista Figueiredo. Isso alimentava uma expectativa otimista, pois ambos os postulantes à presidência, se comprometiam em serem os últimos militares a exercer a chefia do executivo nacional.

No dia quatorze de outubro o Colégio Eleitoral aprovou a escolha do candidato escolhido pelo presidente Geisel, com o registro de 355 votos em favor de Figueiredo e seu vice Aureliano Chaves, contra 226 sufrágios de apoio à chapa Euler/Brossard.

Já eleito, Figueiredo foi interpelado por um jornalista sobre quais eram os seus propósitos em relação à abertura democrática, ao que respondeu, bem ao seu estilo: “Você acha que sou um mentiroso? Há quatro meses que não faço outra coisa, a não ser prometer a abertura. Na hora em que sou eleito, você vem me perguntar se é verdade! Imagine o que o brasileiro pensaria se dissesse que iria refletir melhor. É para abrir mesmo, e quem quiser que não abra, que eu arrebento, não tenha dúvida”.

A verdade é que, apesar da forma em que se procedeu aquela eleição, sem a participação do povo pelo voto, o Brasil iniciava ali um novo tempo da sua história, e começávamos, efetivamente, a caminhar em direção ao retorno da vida democrática.

DO LIVRO “INVENTÁRIO DO TEMPO II”, EM CONSTRUÇÃO
ELIANE BANDEIRA

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