A copa do mundo e a eleição


O verde-amarelo começa a dar tons de patriotismo, nosso time em movimento nos gramados da Rússia. Com isso, arquiva-se por alguns dias a confusa eleição para presidente da República. A coincidência eleição/copa de futebol não é novidade. Existe há décadas. Muitos gostam de misturar os dois eventos. No passado, usaram a habilidade de nossos craques para atrair a simpatia das massas e tentar anestesiar a resistência às malfeitorias dos pretensos donos da Pátria. Em 1970, por exemplo, o general Garrastazu Médici – no turno ditatorial mais repressor daqueles anos -, espalhou na mídia sua imagem, o rádio de pilha colado ao ouvido, como fazíamos, então, quase todos os brasileiros.

Queria ser popular às custas da bola.

Difícil. Mas funcionou. É inegável fato histórico que escondeu a censura, as prisões arbitrárias, tortura e mortes nos cárceres. Por pouco tempo, é verdade. As eleições para o legislativo (só essas eram permitidas, ressalvada a de prefeito municipal e assim mesmo com a exceção das capitais) não despertavam interesse. Por quê? Ora, se o eleitor elegesse um deputado contestador do regime, ele poderia ser cassado por um ato de força com base em uma farsa processual. Por isso, votava-se nulo nas eleições daquele período. Votar neles, uma ova… lá se foi meu indignado protesto, escrito na cédula eleitoral. Escrito com letra trêmula… de medo. Medo de ser pilhado em flagrante!

E em 2018?

A pouco mais de três meses da eleição, quase ninguém sabe em quem votar para presidente da República. Os partidos navegam na indecisão da escolha do candidato. A culpa não é da copa do mundo. A confusão do quadro eleitoral brasileiro tem outras causas. Alinho a seguir os fatores mais evidentes dessa inquietante indefinição coletiva do pleito deste ano.

Primeiro fator, está preso um ex-presidente da República e pré-candidato, embora proibido pela lei ficha limpa. Nunca antes, neste País… apesar disso, Lula é, atualmente, o maior eleitor no Brasil. Sem concorrência. O segundo grande eleitor sequer chega perto do patamar onde Lula está, na escala dos cidadãos capazes de influenciar a decisão do voto de milhões de brasileiros.

Segundo, a lava jato levou à prisão – fechada ou domiciliar-, centenas de corruptos, ativos e passivos, chefes de organizações criminosas, lavadores de dinheiro, carregadores de malas etc. Não se trata de zé-ninguém. São empresários ricos, ex-governadores, secretários de estado, prefeitos, deputados, senadores, doleiros, diretores de estatais. E na fila? Estão milhares! Outros já se acham enquadrados na lei da ficha limpa, portanto, impedidos de disputar a eleição de 7 de outubro. Isso me anima.

Terceiro fator, decisão do Supremo Tribunal Federal proibiu doações de pessoas jurídicas a candidatos e partidos, eliminando assim a torneira mais usada para escorrer propinas e enviesar a liberdade de votar. Em compensação, a lei 13.487/2017 criou o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, com dotação de 1.7 bilhão para ratear entre candidatos, via comando partidário. Instituiu-se também a vaquinha virtual, para arrecadar fundos via internet, aliás, copiada de outros países. Um avanço.

É muita novidade para o Brasil 2018. Tudo isso, tolda o panorama eleitoral, tornando difícil a escolha dos candidatos. Quem sabe, após o reboliço da copa do mundo, na euforia de nova taça ou na ressaca de um 7 a 1, haja espaço para a gente meditar. Disso precisamos. E muito.

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