A casa do Alto Belo Horizonte

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

POR CRISTINA MOURA

TATYANA
4
AM3 – 250×250

Muitas são as histórias contadas e ainda não registradas sobre a minha família de sangue paterno. Numa sexta-feira, foram os preparativos, que nem eram tantos materialmente, para a viagem fundamental. Vovô Zé Pêdo e Vovó Maria migraram do povoado de Melancias, no distrito de Santa Helena, município de Antenor Navarro, para a cidade de Cajazeiras, no sábado cedinho, 26 de dezembro de 1959. Santa Helena se tornou município dois anos depois.  Cometi um equívoco na crônica passada, sobre o dia e o horário em que o casal saiu, com os nove filhos. Pois bem. Agora está corrigido. Livrei-me do carão. E tenho mais um rosário de coisas pra contar.

O caminhão emprestado coube todos os tripulantes mais um feixe de lenha, um petisqueiro, as redes de dormir, umas trouxas de roupa, mesa e cadeiras. Família Costa, Moura, Félix, Quirino. Em relação ao sobrenome Quirino ser ou não ser apelido, como falei, é tema recorrente de investigação. Vovô, segundo Tia Netinha, afirmava que era parente da família Roberto. O sobrenome Vieira também fazia parte das ramificações. Isso tudo vem de tempos, furando os lajedos, cavoucando a terra, carregando o Vale do Piancó, subindo a serra de Horebe, entrando nas grotas, bebendo água de poço, enrascando-se nos carrapichos, chegando no Rio do Peixe. Eita, povo que anda.

Zé Pêdo, sempre religioso, para não perder o prumo: missa todos os domingos, às 10 horas, na igreja de Antenor, celebrada pelo Padre Jaca, o Padre Jácome. A família Macambira foi uma das primeiras patroas do tangerino. As pelejas, que às vezes duravam de seis a cinco meses entregando gado, coincidiram com algum resguardo de Maria. O detalhe é que na região, ali, de uma casa a outra, digamos que entre umas quinze casas, se muito, só havia uma cama de madeira, forrada com uma espécie de esteira de couro de animal curtido nas redondezas. Apenas uma. Pois é. A bendita cama ia de uma recente mãe a outra quase mãe e, assim, rumando de casa em casa, para atender o conforto rural.

Mas se tivesse que ser na rede ou no meio do mato, nascia mesmo. O sertão não é brincadeira. Claudina era uma parteira conhecida da família: pegou alguns dos herdeiros de Vovô e Vovó. De extrema confiança, e não cobrava. Não precisava pagar, dizia ela. Fazia de gosto. Mas, para agradar, bastava uma bicada de cachaça e um pedaço de fumo. Pronto. Estavam feitos os partos e nascidas as crianças.

A casa de Vovô, no Alto Belo Horizonte, fiquei sabendo, era uma espécie de pensão, pensionato, casa de apoio. Zé Pêdo não tinha muito carinho no trato com os outros, de pegar menino no colo, de dar beijo e abraço, de conversar ou rir à toa: era silencioso, compenetrado. Mas era fino o seu senso de solidariedade. Era humano o seu teor de amizade. Zé era um beradeiro honesto e sensato. Visitava quem adoecia, para levar ao menos uma palavra amiga.

Como foi da primeira família a migrar do povoado de Santa Helena para Cajazeiras, a casa virou uma referência. Os motivos eram diversos. Mulher que ia dar à luz, irmão que precisava de tratamento médico, cunhado ou cunhada que queria conhecer a cidade grande, compadre ou comadre com alguma urgência, alguém que enviuvou e ficou desamparado, alguém que queria procurar um emprego, alguém que queria estudar. Desse jeito. E pode botar o bode na panela.

Antes de qualquer coisa, vamos pensar: uma migração para Cajazeiras, com o pouco que se tinha, naquela época e naquela circunstância, não era uma empreitada simples. A primeira mudança havia ocorrido em 1949, do Sítio Boa Esperança para Melancias. No novo local, um grande feito de Zé Pêdo: construir uma casa de tijolos. Teve matuto com olho gordo, disseram. Dez anos depois, mudança de Melancias a Cajazeiras. Um mundo que se abriu. Um universo encantado: a terra do famoso Padre Rolim. Novas perspectivas para os nove filhos. Novos bailados, num grande terreiro de pessoas e ideias. Ave Maria. Aí a gente vai contando noutra oportunidade. Bora pra festa.

ELIANE BANDEIRA

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.