A anestesia do futebol


Um dos meus poucos leitores assíduos, Bosco Amaro, me sugeriu escrever algo sobre a Copa do Mundo. Desde os 7×1, que eu estou desanimado não com o torneio, mas com o futebol em geral, que no mundo, parece ser uma Brasil estendido, corrupção, compra de votos, etc., mas temos que dar uma impressão geral, não do futebol, mas do ambiente futebolístico”, que nos envolve.

Estou fazendo uma coberta de estrutura metálica, e o mestre-soldador raramente aparece. Perguntado, ele disse que “na Copa do Mundo não trabalha”. Fiquei estarrecido; vou nas praças de moto-táxi e é o assunto soberano. Meninas (e meninos) ficam dando palpites e prognósticos, como especialistas.

De repente a crise passou, e a única coisa interessante para quase todo mundo, é a condição física e técnica de Neymar e seus companheiros, se programam festas e churrascos pantagruélicos para os jogos, mais que para qualquer festa, exceto o carnaval.

Não é de hoje. Há tempos que o fenômeno Copa do Mundo eletriza nossa população. Tenho uma prima que morava em Fortaleza em 1982, e que estava lá quando do acidente da Vasp que matou duas centenas de cearenses e pessoas de outros estados. Ela me contou que houveuma comoção bastante sentida, mas que nem de longe se comparou à Copa do Mundo de 82.

Eu mesmo, até a descida de Ricardo Teixeira da Tribuna de Paris em 1998, para obrigar Zagallo a escalar Ronaldo Fenômeno dopado para a final, que eu perdi todo o entusiasmo que tinha por futebol. (Torcer pelo Botafogo e o Atlético e ver eles serem “garfados acintosamente”, pelos juízes teve seu papel dessa descrença sobre a lisura nos resulta dos dos jogos, o que com as novas tecnologias pode diminuir).

Mas, como eu afirmei, o futebol e o Mundial, parecem atuarem como “pacificadores da população”, a crise acaba, se decreta feriado (ou quase) nos dias dos jogos do Brasil, se enche a cara num meio de semana de manhã, o país de tantos feriados, muitos mais e próximos são marcados para as datas dos jogos do Brasil, e mesmo em se tratando de outros time, nunca sobra gente para assistir aos jogos, tal é o poder magnetizador do futebol como um todo e a Copa do Mundo em particular.

Não é a toa que nós somos chamados de o país do futebol ; parece um Brasil em miniatura, com as famosas temerosas transações” a todo vapor, e em escala global. Até hoje o caso da transferência de Neymar para o Barcelona está rolando nos tribunais da Espanha. Noutros países, também pipocam processos de lavagem de dinheiro, compra de resultados, e muito mais. Um time da Inglaterra é possuído por um russo que se entrar no país é preso. Marim anida vive em prisão domiciliar em Nova York, Ricardo Teixeira a o Presidente da CBF, anterior, se pisarem o pé fora do Brasil, são presos.

E os preços dos passes dos jogadores? O quadro de Van Gogh, o pintor moderno mais valorizado, que foi a leilão há pouco tempo, “As Iris”, foi arrematado por
118.000,00 dólares; o passe de Neymar,antes dessa copa do mundo, estava estimado em 1.000.000,00 de Euros, (posso estar enganado, podem ser dólares), mas de qualquer forma, que arte é essa que vale dez vezes um quadro raríssimo de um pintor morto há mais de 100 anos que revolucionou a pintura?

Tudo me parece irracional, desde as discussões de bêbados apaixonados por times, até os comentários abalizados dos técnicos, que de repente, viram figuras com
ares de divindades.

Sem dúvida, o futebol é apaixonante. Mas nunca é pouco recordar a famosa frase de Vandré no Festival da Canção de 68: Gente, a vida não se resume a festivais”, e nem a futebol, mesmo no seu ramadã (mês sagrado para os muçulmanos) que acontece a cada quatro anos.

A crise está pior, e depois especialmente se o Brasil perder (ou não comprar essa Copa), virá com mais força. E a gente sentado na frente de uma TV, como se nossas vidas dependessem disso.

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