Categorias
COLABORADORES

A ampulheta da cerveja

Busquei na estante de minha biblioteca uma ampulheta decorativa porque queria eu saber a quanto tempo de minha alma embriagada um certo líquido amarelo estava na parte superior e qual seria seu tempo determinado a ser esvaziado.

Ouvindo a música Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, antes de pegar a ampulheta representativa de tantos bares de minha vida ébria de prazeres e amizades engarrafadas, fui até o freezer, morada de minhas cervas e abri uma, e o estalo slóp de abertura me despertou, como se fosse o despertador do tempo dos pobres mortais devoradores de geladas.

Covardemente não olhei o tempo restante envasado do vinho que Jesus migrou da água. Para quê? A vida, repleta de surpresas com seus sinais vermelhos, amarelos e verdes, nos obrigando a parar, nos advertindo, e nos ordenando a seguir, estão aí para nos conduzir como a ordem natural da vida.

Em Cajazeiras, em um dos bares que frequentei há poucos dias, estiquei as oiças e pesquei a observação de um frequentador de mesas, balcões e calçadas de bares falando para seu amigo: “veja só: eu, com 70 anos, viúvo, aposentado, se não fosse a bebida moderada que frequento há muitas décadas, eu não estaria mais aqui”. E seu interlocutor completou, olhando para o copo: “Isso é muito bom! ”.

Sei que os abstêmios hão de me condenar, os religiosos de todos os quadrantes, hão de me julgar, e eu apenas, como um padre que, após beber o vinho consagrado e orar, ergo a tulipa de cerveja e brindarei a saúde dos que me condenam, dos que rezam com muita fé, e direi que todos nós, seguindo a vida com ética e fé, somos todos filhos de Deus.

Peguei minha ampulheta de cerveja sem preocupação com o tempo e coloquei em cima do livro de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, e ainda ouvindo Oração ao Tempo, percebi em meu corpo, em minha alma, um bem-estar danado de bom. Uma alegria jamais vista, um contentamento inimaginável como se hoje fosse sexta-feira, o dia de beber cerveja!

Mas hoje não é sexta-feira. Hoje é quinta-feira feira, um dia normal para quem está trabalhando, e hoje não estou trabalhando porque estou de férias, e, acima de tudo, porque HOJE É MEU ANIVERSÁRIO!

Tim, tim!

EDUARDO PEREIRA

Por EDUARDO PEREIRA

Cajazeirense residente em Brasília (DF)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *