[2002] Desempregado, pai leva cobra para filhos comerem

Das páginas do Gazeta do Alto Piranhas para a posteridade

Não se trata de nenhum filme de ficção, nem tampouco estamos na Biafra, ou em qualquer outro país pobre do continente africano. O drama real se passou em Cajazeiras. Desempregado há mais de seis meses, casado e pai de quatro filhos, José Paulino Barbosa (33 anos) conseguiu uma cobra gibóia com quase dois metros de comprimento para ser o alimento de sua família durante alguns dias, há pouco tempo.

Ajudante de pedreiro, José Paulino não consegue serviço há tempos e, desde então, tem passado um sufoco muito grande para conseguir alimento para sua casa. A mulher, Maria José da Silva (23 anos), também desempregada, se desespera ao ver o marido desempregado e os filhos J.M. (12), D.S.B (13), M.S.B. (9) e L.S.B. (5) pedindo comida, sem ter o que lhes dar.

“Quando estamos zerado de tudo, coloco as crianças defronte a televisão para que elas se entretenham até cansarem e dormirem, e assim esqueceram da comida”, disse o pai.

Morador do conjunto Mutirão, na Zona Norte da cidade, José Paulino Barbosa contou ao Gazeta que vendo a falta de comida em sua casa, decidiu tentar pescar algum peixe de açude para alimentar seus filhos. “Fui com uns amigos pescar”, contou, mas a pescaria não deu em nada, Nenhum peixe sequer. Na hora de retornarem, seus amigos viram a cobra gibóia e mataram-na para dar-lhe para comer.

Chegando em casa com a cobra, conta ele, sua mulher ficou doida e não queria que o marido preparasse o animal para a comida. Mesmo assim, “contei um palmo da cabeça e um palmo do rabo da cobra e cortei para depois limpar e tirar o couro; minha mulher não quis comer com medo de ser envenenada, e eu disse que se eu e meus filhos morrêssemos por termos comido a cobra, pelo menos ela estaria viva para contar a história”.

Tendo feito o procedimento correto para a preparação daquele animal peçonhento, José Paulino e os quatro filhos estão vivos mas não satisfeitos. Afinal, nem todo dia encontrarão uma cobra para se alimentarem.

GAZETA DO ALTO PIRANHAS – ANO 4 – Nº 181 (07 A 13/06/2002)

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